Entrevista: A Arte da Cerâmica

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É uma tendência que se confirma: mais pessoas estão buscando um retorno à natureza. O resgate da cultura dos povos tradicionais, por exemplo, com música, danças e hábitos, estão chegando às grandes cidades. E nossa urbanidade está reproduzindo esse movimento de muitas maneiras. A decoração de interiores em tons terrosos, a moda da selva em casa e um número crescente de pessoas se envolvendo com trabalhos em cerâmica.

Julia Sá Earp é uma delas. Ela está fazendo doutorado em Antropologia no IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ) mas revela: “Por conta desse foco tão mental a cerâmica entra no outro extremo”.

“Sinto que o barro é uma senhora bem velhinha que vem sussurrar na sua mão vontades, curiosidades, desejos. É uma terceira ou quarta avó, é uma delícia passar horas acariciando, vendo suas respostas, suas questões”, diz.

A seguir Julia conta como foi essa experiência em Minas e como deu continuidade à arte da cerâmica na cidade do Rio de Janeiro. Confira e inspire-se!

Trabalho em Cerâmica: Aprendizagem de Campo

Faz Fácil: Quando começou sua história com a cerâmica? Como foi que aconteceu?

ceramica

Produção de vaso de cerâmica em Minas Novas, MG

Julia Sá Earp: Minha relação com o barro vem desde pequena, como todas as crianças que tiveram uma educação em escolas com foco maior em matérias de artes. Mas comecei a encarar como uma atividade mais profissional há pouco tempo.

Foi logo depois de uma viagem para Minas Novas, lá no norte de Minas, quase Bahia. O grupo era liderado pelo artista plástico João Kammal.

Passei uns dez dias na casa de uma artesã da região aprendendo a fazer barro como elas fazem. Coletando o barro, amassando… fazendo potes do jeito que elas fazem… e acordando e indo dormir todos os dias com essa família de ceramistas.

Ouvia suas histórias e ia conhecendo um pouco mais de um Brasil que pouco se olha e pouco se fala. São encontros e tempos diferentes, o tempo da lenha, o tempo do barro…

Descobertas

FF: O que encantou você nesse encontro?

JSE: A sutileza delas [das ceramistas] me comoveu muito. As bonecas de cerâmica da região, assim como todos os vasos e potes, possuem formas tão femininas e tão daquele lugar que a vontade de me encontrar com barro no meu microcosmos foi bem grande!

Foi nessa viagem que eu me reencantei pela cerâmica e voltei pro Rio de Janeiro querendo buscar aulas, ateliês e pessoas que faziam também.

FF: E como foi essa volta?

JSE: Foi aí que eu encontrei o ateliê que eu frequento até hoje, da Taciana Amorim. E assim como as mulheres de Minas Novas, a Taci me mostrou mais coisas da cerâmica daqui, do fazer cerâmica daqui.

Desde o preparo do barro à esmaltação até a queima. Tudo nas especificidades de fazer cerâmica em centros urbanos, em casas e ruas do Rio. E assim no meio do caos da vida a cerâmica foi tomando espaço no meu cotidiano… e tomando espaço… e hoje é uma verdadeira paixão.

Processo de Criação de Peças de Cerâmica

FF: Como é o seu processo de criação das peças de cerâmica? Você faz croquis antes ou faz sem muito planejamento?

JSE: O que me impulsiona nesse processo é o desejo de ver o inesperado. Claro que em alguns casos os croquis são necessários, mas de fato a resposta que o barro dá a sua mão é bem distinta do que a resposta do grafite no papel… sabe?

ceramicaÉ massa, é corpo se encontrando com outro… muitas coisas estão envolvidas. E acaba que esse processo está muito relacionado ao estado emocional e ao ritmo da vida.

Querer resultados rápidos ou demorados, ter a vontade de demorar em uma peça ou de ter logo a peça pronta porque o interesse em uma é o esmalte e o interesse em outra é a forma. Ou o interesse em uma é a execução de um projeto e tem um cronograma a cumprir.

Depende muito mesmo. Às vezes pego um pouco de barro já na certeza de fazer algo específico, um projeto que eu tenho na cabeça e quero realizar. Gosto bastante disso, de ter uma coisa que eu quero fazer ou inventar do meu jeito.

Mas às vezes eu só quero experimentar vontades, de amassar, de misturar uma argila com outra. De experimentar mesmo a alquimia do barro. Definitivamente não se resume em um caminho só.

Técnicas e Materiais

FF: Quais são os tipos de materiais envolvidos no ceramismo? Quais você usa?

JSE: Bom, existem muitas técnicas. E os materiais envolvidos em cada técnica se diferem pela complexidade do processo. Além disso, cada fase de secagem do barro envolve um tipo de ferramenta para o acabamento.

Atualmente tenho usado mais a técnica de placas e a de pinch , que não utilizam o torno e envolvem ferramentas simples como o rolo, a mesa. E ferramentas de acabamento como lâminas, palha de aço e lixas.

FF: As massas de cerâmica já vem com cor? Ou você colore depois?

bule julia sa earpJSE: Existem argilas que já possuem tonalidades. Isso acontece por existirem minerais que dão à terra cores específicas. Mas também temos como tonalizar a argila misturando as diferentes cores ou até aplicando pigmentos. As possibilidades são infinitas.

FF: Você usa moldes? Quais as ferramentas que usa para dar forma?

JSE: Às vezes eu uso moldes e outras vezes não. Se quero replicar uma forma, utilizo moldes de gesso. Se não estou muito preocupada com um padrão, faço à mão livre.

Os pratos que faço normalmente são produzidos com placas misturando as argilas. Recorto no formato que quero e deixo secar até o ponto de couro em um molde de gesso. Só para eles ficarem com a intenção da curvatura de um prato.

FF. Quais os cuidados na hora de dar forma às peças?

JSE: São muitos os cuidados. Ter mãos bem leves.. dando carinho mesmo a essa massa senhora. Até protege-la para que não seque de forma não uniforme e acabe rachando.

FF: Aonde você dá forma às suas cerâmicas? E aonde fica o forno?

Atualmente eu tenho um espaço pequeno em casa onde faço algumas peças. Mas a maioria é realizada no ateliê da Taciana, que eu mencionei acima, que é onde fica o forno.

Tempo para uma Peça de Cerâmica Ficar Pronta

FF: Quanto tempo você leva para que suas peças de cerâmica fiquem prontas?

Essa é uma pergunta meio desafiadora, pois esbarra em uma percepção de tempo que a gente não está acostumada. Que é o tempo do barro.

prato ceramica artesanalTodo o processo de dar forma tem que respeitar o tempo de secagem do barro e seus “pontos”. Que são basicamente o barro úmido, o ponto de couro e o ponto de osso antes de ir para o forno.

Quando você pega um punhado de argila para começar a dar forma, ela está bem molhada. E isso é ótimo para iniciar a forma. Depois deve-se colocá-la para secar naturalmente. Envolvo com um plástico até ela chegar em um ponto que ainda possui água mas não dá para amassar livremente como no início do processo.

Nesse ponto, que é o ponto de couro, trabalha-se com lâminas e ferramentas específicas. Depois dessa etapa, ela deve secar mais um tempo parcialmente coberta. Isso até atingir o ponto de osso, que é o ponto onde a peça está totalmente sem água.

Só assim ela pode ir ao forno sem correr risco de estourar ou rachar. Depois da primeira queima, a peça sai em ponto de biscoito. Ou seja, ela já é um barro cozido e não há como voltar a primeira etapa do barro cru.

Nessa etapa pode-se esmaltar a peça e levá-la novamente ao forno, e só na saída dessa segunda queima que a peça está pronta.

Forno para a Queima da Cerâmica

FF: Como você transporta essas peças até o local do forno?

JSE: Quando a peça não está no ateliê transporto-as envolvidas em plásticos bolhas ou em caixas de papelão. Com todo o cuidado do mundo!

FF: Quanto tempo as peças precisam ficar no forno?

JSE: Olha… eu não saberia dar um dado exato. Porque normalmente a fornada é montada com diversas peças de diversas pessoas que frequentam este ateliê. Ou que apenas pagam a queima por peça.

Além disso não costumo acompanhar esse processo até o fim.

FF: Elas podem ficar cruas ou “torradas” demais?

JSE: Pelo contato que eu tenho no ateliê que eu trabalho isso não é comum. Porque o forno é elétrico e tem uma precisão de tempo e temperatura bem controlada. E pelos anos de experiência das pessoas que operam o forno esse tipo de coisa não acontece.

FF: Se a peça ficar crua pode voltar ao forno? Ou é uma peça perdida?

JSE: Eu diria que, dependendo do caso pode voltar sim. Pois às vezes até esmaltamos duas vezes seguidas quando não gostamos de um resultado.

Peças de Cerâmica

julia sa earp

Julia Sá Earp

FF. Que tipos de peças você fabrica?

Tenho fases. Já tive a onda dos pratos coloridos, já tive a onda das xícaras…

Agora estou nessa de experimentar misturas de barros e inventar uns vasos mais doidos com mais calma. Talvez algo menos utilitário mesmo.

Mas também tenho planos de começar a fazer umas mesas, umas coisas mais malucas, explorando técnicas diferentes. E até joias.

Aprendizado pela Cerâmica

FF: Qual a sua relação subjetiva com o processo de fabricação de cerâmica? O que você sente?

Com toda a certeza o processo de fabricação da cerâmica alimenta meu lado criativo e intuitivo em vários aspectos. Tem sido uma atividade preciosa de equilíbrio com a minha vida.

Faço doutorado em Antropologia e, por ter esse foco principal tão mental e teórico, a cerâmica entra no outro extremo. Ela afirma “tudo bem errar, tudo bem testar, pode arriscar à vontade. Quem sabe isso com aquilo não fica legal? Se não ficar, tudo bem!”.

É um verdadeiro divã de terra em que é inevitável falar de conexão e aproximação do que temos de mais intuitivo mesmo.

Sinto que o barro é uma senhora bem velhinha que vem sussurrar na sua mão vontades, curiosidades, desejos. É uma terceira ou quarta avó, é uma delícia passar horas acariciando vendo suas respostas suas questões.

FF: Qual o conselho que você dá a quem está começando nessa atividade?

JSE: Meu conselho seria se jogue e se apaixone, e acho que principalmente esteja aberta à outros tempos.

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